domingo, 30 de janeiro de 2011

O Besouro Azul

Faz um ano que comecei a busca pelo fusca. Foram várias tentativas frustradas, carros acabados e outros muito áquem das minhas capacidades financeiras. Comprei um fusca 1972 que nunca chegou e demorei meses para recuperar meu dinheiro investido em nada. Depois me arrumaram um fusca 1300, 1970, bege, popularmente conhecido como "Tétano", imaginem o porquê.

Era tanta ferrugem e o preço tão alto que fiquei frustrado. Pensei por um minuto e disse não. Se eu pudesse tirar algumas peças tudo bem, mas restaurar esse fusca não era para mim. Eu queria um carro que andasse enquanto eu aos poucos fizesse a sua reforma.

Por sorte, no mesmo dia em que disse não ao "Tétano", um amigo me disse sobre um fusca à venda. Fui ver o carro e me apaixonei de imediato, apesar de ser um "cabrito", tamanhas as modificações, que impossibilitavam até mesmo dizer que não era um fusca, mas um fuscão 1970.



Combinado o preço do "fuscabrito", começou a novela para a compra. Três meses para que o "Besouro Azul" viesse para as minhas mãos. Uma longa história...

Reparem que havia um adesivo de propaganda eleitoral colado no para-brisa e faltava um braço do limpador.


O interior acabado, bancos que não prendiam no lugar, volante horrível, sem frisos... ia dar trabalho... mesmo assim, paixão não tem preço.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Corsa - Parte 10

Depois da série de sustos e prejuízos sem tamanho, o Corsa e eu chegamos ao fim, assim como também chegou ao fim meu casamento. Dois anos e meio de sufoco, tanto na vida quanto nas relações pessoais. Como nada é para sempre, a vida segue.

Rompido o casamento, o carro ficou quinze dias na posse de minha ex-mulher, em Volta Redonda, aumentando o meu estresse. Assim que ela voltou para Angra dos Reis, não tive dúvidas. Era hora de vender o carro e repassar a parte que lhe cabia no bem. Maldito casamento com divisão de bens!

Chamei o meu irmão, Wagner Lannes, para me acompanhar à agência e vender imediatamente o Corsa, antes que o carro me fosse levado novamente. Não sei se foi a maior tolice que eu fiz, mas o arrependimento hoje é grande, ainda mais depois de ver o lindo corsinha desfilando pela rua, enquanto eu vivo metido em oficinas. Que destino! Por mais surrado que tenha sido, o Corsa nunca negou fogo e sempre esteve pronto para aguentar mais maus tratos por parte de imprudentes motoristas. Dele, a lembrança, fora os fatos até aqui mencionados, é boa. Histórias inesquecíveis me ocorreram naquele pequeno carro branco, notas impublicáveis, que não há como esquecer.

Toda despedida é triste. Todo fim deixa uma certa mágoa e o desejo de que poderia durar mais um pouco. Mas para nós, homem e carro, não havia mais meios de continuarmos. Era chegada a hora da mudança, hora de elevar a minha moral, que estava muito por baixo por conta dos últimos acontecimentos da minha vida pessoal despedaçada. E já que eu começaria a vida do zero de novo, nada melhor do que ter um carro novo para me guiar no novo caminho.

Encontramos no pátio da agência um antigo sonho de consumo: um Honda Civic 3D Si preto com pigmentos de alumínio. O carro era fabuloso. Lindo como nos meus delírios juvenis. Não houve quem me tirasse da ideia trocar o corsinha pelo Marmita, principalmente depois de uma volta com o carro. Tudo era perfeito: a dirigibilidade, o conforto, a estabilidade, o ronco forte do motor, o estilo esportivo, a aparência incomum. Eu, levado pela empolgação, não me importei com a idade do Honda, não liguei para o fato de ser importado, não pensei no alto custo da manutenção, eu queria aquele carro.


Despedi-me do Corsa com um aperto no peito. Sentimentalidades bobas, mas era o primeiro carro, comprado com o esforço do meu trabalho e que me atendeu perfeitamente quando pôde. Era difícil, mas o substituto preencheu o seu lugar.

Sai da agência fazendo o motor do Honda roncar alto. Com um sorriso imenso de satisfação estampado no rosto.

O telefone tocou. Era minha ex-mulher me comunicando que queria o carro para ir a uma festa em Paraty. Eu dei uma gargalhada cínica antes de avisar que o dinheiro que lhe cabia do carro seria depositado na segunda-feira.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Corsa - Parte 9

No dia 23 de outubro de 2005 ocorreu o referendo sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições no Brasil e também o dia em que, por pouco, não morri num violento acidente de carro.

O que era para ser apenas mais um dia tornou-se um pesadelo terrível quando eu voltava para casa à noite. Lembro que meu pai se ofereceu para me levar à cidade, e eu recusei; lembro de, na volta, ter pensado em comprar uma Coca-cola, mas desisti, porque queria chegar à minha casa o mais rápido possível. Pequenos detalhes que poderiam ter mudado toda a história. Se eu tivesse parado para comprar o refrigerante, se tivesse seguido por outro caminho, se fosse o Uno do meu pai, se eu tivesse me demorado mais um pouco não teria o prejuízo no bolso, não teria o susto que me desorientou, nada teria acontecido. Mas as hipóteses são apenas hipóteses, eram tantos “ses", eram tantas possibilidades. Não passaram disso.
Dirigia numa velocidade média, nem rápido demais, nem devagar demais. Passava pela Angra-Getulândia, num trecho calmo, tão conhecido que poderia fechar os olhos e ainda saberia o caminho. Chegando ao segundo quebra-molas, diminuí a velocidade, quando ouvi um som de uma batida. Olhei rapidamente pelo retrovisor e vi a luz do farol de um carro vindo em alta velocidade na minha direção. Não deu tempo de fazer muita coisa, apenas senti a pancada na traseira do Corsa, que voou pelo quebra-molas, parando em frente ao ponto de ônibus.

Do momento da colisão até o carro parar, não me lembro de nada. Parece que apagaram um pedaço das minhas lembranças, tamanha a violência do choque. Alguém no ponto de ônibus abriu a porta e me perguntou se eu estava bem. Não conseguia responder, apenas olhava para o rapaz e balançava a cabeça, completamente desnorteado.

Quando consegui entender o que havia acontecido, pulei do carro e fui conferir o estrago. A traseira do Corsa estava destruída. A capa do para-choque estava totalmente quebrada, a barra do para-choque foi forçada para dentro, rasgando o pneu e amassando o aro da roda. Pedaços da lanterna traseira espalhados para todos os lados, a tampa do porta-malas irrecuperável. Só não entendi como não quebrou o vidro. Acho que por ter conseguido sair do centro da batida, fazendo com que a colisão acontecesse do meio para a esquerda, salvou-me de um prejuízo ainda maior.


Desnorteado ainda, tanta pelo acidente como também pela raiva, não sentia nenhum tipo de dor. Não percebi que meu peito estava dolorido, nem que o cinto de segurança tinha deixado um vermelhidão em meu tronco, mas não fosse por ele, eu teria voado pelo para-brisa. Depois desse maldito dia, nunca mais andei sem cinto de segurança, seja por cinco metros ou mil quilômetros; seja no banco do motorista ou no do carona; seja na frente ou atrás, basta que me sente no banco para que puxe sobre mim o cinto.

Um casal correu em minha direção. Mais à frente meu algoz tinha parado o carro. Imediatamente fui verificar o estado do dono do carro que bateu em mim. Sei que o prejuízo seria grande, mas a matéria se recupera, uma vida, não. Para meu espanto, e raiva multiplicada, ele estava bem vivo, apesar de um corte na boca que o deixava todo ensanguentado. Não tive tempo de me apiedar dele, porque imediatamente percebi que o rapaz estava completamente bêbado, mal se agüentando de pé.

Como não haveria jeito para uma conversa sensata, liguei para a polícia, comunicando o acidente e o estado alterado do rapaz, que saiu correndo em disparada, deixando o carro com as chaves na ignição. Tentei segurá-lo, mas não tive sucesso. Ele fugiu.

Conversando com o casal, descobri que o estrondo que ouvi antes fora o carro deles sendo acertado na lateral pelo bêbado. Ele estava em alta velocidade, trafegando na contra-mão. Não conseguiram desviar o suficiente para evitar a batida, mas, pelo menos evitaram maiores prejuízos.

A polícia chegou, meu pai também chegou, meu mecânico chegou, minha advogada chegou e se armou a confusão, porque localizaram o causador do acidente, mas ele estava trancado em casa. Como o carro ficou, não houve jeito, a família do bêbado foi obrigada a comparecer ao local. Mais discussões, brigas e ameaças de prisão. Por sorte, eu conhecia o cunhado do rapaz, que me garantiu que ele arcaria com as despesas para arrumar o pobre corsinha. Minha advogada tomou à frente do caso e eu, ainda sem pensar direito, fui para casa com meu pai, horas depois.

No dia seguinte fomos ver melhor o carro, que já estava na oficina. Era muito pior do que eu me lembrava. O preço para o conserto: R$ 3000,00. Por sorte, o mecânico era de confiança e me orçou o preço sem os seus lucros. Comecei a achar difícil que o camarada imprudente arcasse com as despesas.

Mais tarde ele chegou com a mulher e os filhos. A única coisa que eu queria era partir para cima dele e lhe dar uma boa série de socos. Mas fiquei quieto no meu lugar, porque não sou adepto da violência e não queria perder a razão. Ele mal conseguia olhar para mim. Dizia que errara, que bebera demais e não se lembrava de muita coisa da noite anterior. Quando o infeliz viu o meu carro, escancarou a boca e se lamentou, não acreditando que tinha sido tão feio o acidente.

Partes acertadas, começou a novela para o conserto do Corsa destruído. Foram messes de espera para que se pudesse desentortar, alinhar, reparar, comprar peças, pintar a lataria e ter o carro de volta.

Depois disso, desanimei com o corsinha. Tudo o que eu queria era vendê-lo e esquecer os problemas que tivemos. Começar de novo com outro carro e ter mais sorte. Mas se eu soubesse o que me esperava no futuro, o Corsa estaria comigo até hoje.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O CORSA – Parte 8

Imprevistos acontecem quando menos esperamos. Ficamos parados quando estamos com pressa. Gastamos dinheiro quando não temos. Perdemos a paciência quando tínhamos que ficar calmos.

A “zica” atacou o corsinha de novo. Coisa simples, mas depois da imensidade de problemas que enfrentamos com o carrinho, qualquer ruído parece estourar os tímpanos. É difícil de acreditar que tantas vezes o azar cruzou nosso caminho. Acho que quanto mais cuidamos, quanto mais nos preocupamos com as coisas, mais atraímos negatividades. Eu sempre fui assim, sempre tive excesso de zelo pelas minhas coisas, um cuidar daquilo que batalhamos para conseguir, por isso quando algo quebra, dá errado, é danificado, a dor é mais sentida.

Fui trabalhar com o corsinha depois de tirá-lo da oficina mais uma vez. Não lembro com precisão quanto tempo ele ficou no conserto, mas sei que foram algumas longas semanas. Era uma tarde cinzenta, ameaçava chuva, por isso a escuridão veio antes da hora. Dei minhas aulas e saí do Jean Piaget feliz por poder voltar logo para casa e descansar depois de um longo dia de trabalho.
Virei a chave e o carro não pegou de primeira. Gelei. Virei de novo e o motor ligou. Mas estava fraco, barulhento, parecia que iria morrer a qualquer instante. Pensei que o estrago foi maior do que imaginei, pensei que depois de rodar sem água, ele não teria mais fôlego, apesar de ter trocado as peças necessárias. Pensei que dessa vez ele não teria resistido.

Quando saí com o carro da vaga, ele estava cansado. Não tinha força nem para subir a pequena ladeira que leva à rua que contorna a do colégio. O carro morreu mais uma vez, deixando-me nervoso, com o coração acelerado. Consegui manobrar o corsinha com dificuldade. O que fazer, eu me perguntava. Lembrei de um mecânico ali perto. Já tinha levado o carro em sua oficina quando esbarrei a roda no meio-fio, desalinhando-a. Era o mais perto e eu já o conhecia. Com a velocidade de uma tartaruga fui descendo a Bruno Andréa até chegar à Oficina do Mota.

O mecânico abriu o capô e pediu para que eu ligasse o carro. Ouviu o som do motor, mexeu nos cabos e deu o diagnóstico: velas de ignição queimadas. O corsa tinha apenas um vela funcionando, por isso a dificuldade para fazê-lo pegar e a lentidão com que andava.


Serviço pronto, voltei para casa aliviado, mas com o bolso mais uma vez vazio.

O Corsa - Parte 7

As desventuras do Corsa estão chegando ao fim, mas nem por isso os problemas e contratempos, além, é claro, dos maus tratos a que ele foi submetido acabaram. Durante os dois anos que fiquei com o carrinho comprado na, felizmente fechada, Vadico Veículos, do Parque das Palmeiras, histórias incríveis aconteceram, histórias que contando, às vezes, nem dá para acreditar de tão surreais que são. As testemunhas existem para isso, e testemunhas das barbaridades existem aos montes.

O acontecimento descabido deste capítulo aconteceu no fim de 2004, quando a motorista descuidada resolveu ir para Volta Redonda sozinha, depois de, claro, mais uma discussão entre mim e ela.

Já farto do casamento falido, dei graças quando ela me disse que iria passar o fim de semana na casa dos pais, só não gostei de saber que ficaria sem carro, mas não me importei muito, porque não faria nada além de assistir tranquilamente aos filmes que estavam esperando há tempos para rodarem no meu aparelho de DVD sem ninguém me encher a paciência. Assim, sozinho em casa, pus os pés para cima e apertei o “play” do controle-remoto, acompanhado de potes de pipoca e garrafas de Coca-cola.

Mas, em se tratando de mim, nada seria tão tranquilo como aparentava ser, nenhuma felicidade duraria muito tempo, porque o Corsa estava em mãos perigosas.

No domingo à tarde o corsinha voltou de viagem. Minha ex-mulher me ligou da garagem, pedindo para que eu descesse e visse o carro. Lembrando da última vez que ouvi a mesma frase, quando ela estourou a frente do carro na traseira da Montana, corri com o coração na mão, temendo encontrá-lo mais uma vez destruído.

Numa primeira vista, não vi nada de anormal. Não havia nenhum amassado, nenhum arranhado, aparentemente nada de errado. Mas de imediato fiquei incomodado com a ventoinha do radiador que não desarmava, ventilando em potência máxima, mesmo com o motor desligado. Isso não era normal.

Notei a expressão de “fiz besteira” estampada no rosto da minha ex-mulher, como se me pedisse com os olhos chorosos para não brigar com ela. De imediato, perguntei, sem me apiedar, o que ela tinha feito dessa vez. Quase caí para trás com a resposta, sentindo o sangue ferver mais que a água que deveria estar no radiador, e não estava.



Tem gente que acha que ter um carro é apenas sentar no banco, girar a chave e dirigir à vontade. Não, não é assim. Um motorista deve cuidar do automóvel, não só guiá-lo. Se o fizessem, não teríamos um número imenso de carros em estado de miséria rodando pelas estradas, se fizessem metade das revisões necessárias ao bom funcionamento da máquina, não teríamos oficinas sempre lotadas, mas a maioria das pessoas ignora a maioria dos cuidados essenciais; ignora quebra-molas, passando como loucos por cima das lombadas, surrando a suspensão, arrastando o assoalho, estragando pneus, só como simples eventos.

Qualquer motorista que se preze sabe que antes de sair deve-se fazer uma checagem dos itens mais simples como: gasolina, água, luz, óleo, pneus e estepe. Quando nos esquecemos de verificar um desses itens, que aparentemente são irrelevantes, podemos ficar parados no meio da estrada sem que nada possa ser feito, a não ser esperar o guincho chegar para nos livrar de uma noite mal dormida no banco de trás.

No caso do sofrido Corsa, o problema foi a verificação do nível da água do radiador antes da viagem. O reservatório não foi conferido desde que saiu da garagem de Angra, rodando três dias em Volta Redonda e descendo a serra novamente. Um pequeno vazamento fez secar o reservatório, o motor esquentou mais do que devia e a válvula termostática foi para o espaço, e por mais um pouco não teria o motor fundido. Por sorte, quando a válvula derreteu, o carro esquentou demais e parou de funcionar, pois se continuasse mais um pouco os prejuízos seriam imensos.

Parada no meio da estrada, a infeliz motorista teve a sorte de uma boa alma parar para ajudá-la, fazendo uma ligação direta na ventoinha do radiador, por isso estava ligado quando cheguei à garagem. Uma “gambiarra” que possibilitou que o corsinha voltasse para casa.

Não preciso nem dizer que o tamanho da bronca foi homérico, seguido de mais uma proibição temporária de pegar o carro. Eu já não agüentava mais ouvir piadas dos amigos e, principalmente, do dono da oficina, que mais uma vez me recebia para um novo conserto. Como o corsinha era um cara valente, aguentou bem o mau trato e, uma semana depois estava pronto. Pronto para me deixar na mão de novo uma semana depois.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O Corsa – parte 6


"Mau-olhado ou olho gordo é uma crença folclórica (provavelmente muito antiga por ser observada entre vários povos) de que a inveja de alguém, demonstrada pelo olhar ou não, pode vir a ocasionar a degradação do alvo da inveja ou de uma boa sorte. Para tanto, em todas as culturas em diversos tempos da história, foram criados amuletos conta o mau-olhado, como nazar.
Tradicionalmente associado à idéia de "secar com os olhos", de maneira que o olho gordo representa uma forma de impedir a nutrição continuada de uma relação de prosperidade por meio de retirada da umidade.
Na tradição bíblica, o mal olhado tem vinculações com a restrição à cobiça (Êxodo 20)".
Wickipédia



Certas coisas só acontecem comigo, ou melhor, com meus carros. Não sei se é mau-olhado ou falta de sorte, mas quando o improvável acontece, é comigo mesmo. Por exemplo, quem iria supor que depois de tirar o carro da oficina, às 7 da manhã, numa rua aparentemente tranquila, um carro bateria no meu Corsa, um minuto depois de estacioná-lo em frente ao colégio onde trabalho? Pois é, o improvável aprontou comigo.



Lembro que fiquei algumas semanas com o carro parado por algum motivo que me falha a memória, no dia seguinte ao que o retirei da oficina, fui trabalhar feliz por não ter que acordar mais cedo e enfrentar a irregularidade do transporte público. Estacionei o carro em frente ao Colégio Jean Piaget, na rua Bruno Andréa, no Parque das Palmeiras, para trabalhar. Parei o Corsa um pouco à frente do lugar de costume e entrei na secretaria. Quando saí da sala, o porteiro, Celso, perguntou se o Corsa branco era meu. Diante da minha afirmativa, ele balançou a cabeça negativamente e repuxou os lábios formando uma expressão de pesar. Retruquei sem entender muito bem o que ele queria com aquilo. Celso apontou para o corsinha e disse que a dona da casa ao lado do colégio esbarrou no meu carro quando manobrava a sua Pick-up. Gelei.
Corri para o carro e me senti como se levasse um soco na boca do estômago. Um amassado no paralama e na porta. A raiva subiu como bile pela minha garganta. Tive vontade de xingar, mas contive meu impulso colérico porque havia muitas crianças e alunos por perto.



Felizmente a mulher pagou o serviço sem que eu precisasse falar qualquer um dos impropérios que articulei mentalmente quando vi a barberagem que ela fez. Menos mal, mas tive de voltar aos ônibus da Viação Senhor do Bonfim por mais uma semana.

Casos como esse aconteceram mais de uma vez comigo, e não foi só com o Corsa, ainda me perseguiram por outros carros em diversas situações. Não sou de crendices, mas tudo me leva a crer que o tal mau-olhado, também conhecido como zica, me persegue.

As desventuras do Corsa estão chegando ao fim. E o pior ainda está por vir.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Corsa – parte 5

Eu realmente era feliz com o corsinha branco. Fora os problemas citados anteriormente, o carrinho nunca me deixou na mão. Sofreu muito, é verdade, nas mãos da minha ex-mulher, mas como um bravo guerreiro aguentou com coragem e determinação os maus tratos a que foi submetido. Era um carro para o dia a dia, que me levava ao trabalho, que me levava em viagens, subindo a serra de Lídice sem vacilar, embora padecesse com seu motor 1.0 para ultrapassar caminhões na subida cheia de curvas da Angra-Getulândia quase que semanalmente.

O carro foi feito para se ter apenas um dono, um motorista. Quando duas pessoas completamente diferentes dividem o mesmo volante as coisas não dão muito certo. E quem sofre, obviamente, é quem tem zelo pelo automóvel. Podemos dizer que eu era um dono chato e cuidadoso demais, não levando o corsinha para lugares em que certamente teria que submetê-lo à situações, digamos, perigosas. Não o estacionava em qualquer lugar, mesmo de dia, evitando lugares ermos e escuros; não dirigia nas horas de pico, por saber que, geralmente, as pessoas têm ânsia de voltarem para casa, cometendo as maiores loucuras no trânsito; não me embrenhava em estradas de terra, porque off-road não é o forte de carros urbanos. Pode até parecer que era besteira, mas eu gostava de ter o carro limpo e seguro. Detalhes que minha ex-mulher ignorava.

Não estou aqui para denegrir a imagem dela como motorista, hoje, para sua sorte, ela não é tão ruim como era antes, mas naquele tempo fazia jus ao perigo constante. Certa feita, em Volta Redonda, por pouco não se acaba o corsinha na lateral de um ônibus. Minha espinha gela como se fosse agora sé em lembrar. Ela vinha na pista, a estúpida mania de dirigir com a mão sobre o câmbio, como se fosse uma excelente motorista, acelerava desnecessariamente pela via urbana, com seu ar superior, querendo mostrar que era capaz e melhor do eu a julgava. Apesar das minhas reclamações para andar mais devagar, para pôr as duas mãos no volante, para prestar atenção no que fazia, ela insistia em me ignorar. De repente o imprevisto aconteceu. Um carro saía da vaga em que estava estacionado. A preferência era nossa, mas não havia tempo de retornar ao lugar onde estava. A solução óbvia era diminuirmos a marcha para que o cidadão imprudente pudesse entrar no fluxo de trânsito, mas a infeliz acelerou ainda mais, com a iminência da colisão, ela jogou o carro para a outra pista sem olhar o retrovisor. Ainda ouço o forte barulho da buzina do ônibus, que passou tirando fino do retrovisor direito, em meu ouvido. Que desespero.